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Zaika dos Santos: pesquisadora do afrofuturismo afirma 'inova??o visionária' das mulheres negras

Multiartista, pesquisadora e cientista do Afrofuturismo, do Afropresentismo e do African futurism fala sobre o protagonismo feminino negro na arte, na ciência, na tecnologia e na inova??o africana e afrodescendente
Zaika dos Santos é multiartista, pesquisadora e cientista do afrofuturismo Foto: Transitora (@nokenago e @55pxl) / Divulga??o
Zaika dos Santos é multiartista, pesquisadora e cientista do afrofuturismo Foto: Transitora (@nokenago e @55pxl) / Divulga??o

Entre as inúmeras mulheres negras que estudam e d?o continuidade ao legado do movimento afrofuturista no Brasil está Zaika dos Santos, mineira de 33 anos. Por meio de seu trabalho como multiartista, pesquisadora e cientista do Afrofuturismo, do Afropresentismo e do African futurism, três conceitos distintos mas complementares, ela ajuda a difundir a importancia da cultura e da diáspora africana para a constru??o de novas realidades entre o povo preto.

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Em um de seus principais projetos, o "Afrofuturismo no WOW" (Festival Mulheres do Mundo), Zaika reúne vídeo, podcast e fotografias de mulheres explicando, cada qual em sua área de atua??o, o significado do movimento. Também como coordenadora nacional do "Black Speculative Arts Movement", rede mundial de afrofuturistas, idealizada pelo doutor Reynaldo Anderson, a cientista constrói memórias coletivas do afro.

Em entrevista a CELINA, ela fala sobre o protagonismo feminino negro na arte, na ciência, na tecnologia e na inova??o africana e afrodescendente. Zaika explica conceitos, diz quem s?o as principais expoentes dos movimentos e quais as tranforma??es sociais trazidas por eles.

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CELINA: O que é e como surgiu o Afrofuturismo?

Zaika dos Santos: O termo foi conceituado pela afro-americana Alondra Nelson, que é antropóloga, socióloga e uma escritora acadêmica bastante premiada. Ela pauta as interse??es sobre ciência, tecnologia, medicina e desigualdade social e, em 1998, estabeleceu a comunidade on-line Afrofuturismo. O ponto principal do movimento é apresentar as abordagens de passado, presente e futuro na reconex?o do que foi negado historicamente a africanos e afrodescendentes nos processos históricos.

Por intermédio da pesquisa levantada por Alondra fica explícito que o termo foi cunhado por ela e "apropriado" por Mark Dery (n?o negro), que segue recebendo o crédito pelo mesmo na Academia e na mídia. Aqui no Brasil, o conceito conversa com as narrativas históricas de autoras como Lélia Gonzalez, Abdias do Nascimento, Sueli Carneiro, Milton Santos, Carlos Machado e muitos outros.

Como o Afrofuturismo é visto na perspectiva de mulheres negras?

Zaika dos Santos: O Afrofuturismo como conceito tem for?a de nascimento e inova??o visionária pela perspectiva de mulheres negras; isso é um fato consumado. No campo da ciência, a descoloniza??o científica pautada por mulheres negras é proposta a partir da retomada histórica na  inova??o. é o caso de Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson, cientistas negras da Nasa que tiveram suas histórias contadas pelo filme "Estrelas além do tempo".

O debate dentro da linguagem cinematográfica e da comunica??o ganhou for?a com Kênia Freitas, aqui no Brasil, em 2014. Partindo de autoras como Ytasha Womack, ela amplia a conversa sobre o conceito. Nas rela??es da comunica??o, tecnologia e nas artes se intercalam e têm amplitude como discuss?o na narrativa de diversas mulheres negras pesquisadoras em todo o Brasil como as afrofuturas, Lu Ain-Zaila, Asa Njeri, Kinaya, Morena Mariah, Preta Nerd, Andreza Rocha, Ventura Profana, Thamyra Thamara, Xênia Freitas, Luciane Neves, Bárbara Aguilar, Allana Cardoso e Aretha Sadick, entre muitas outras.

Eu queria conseguir, no mínimo, umas 30 páginas em entrevistas para citar o nome de todas elas, sem deixar nenhuma de fora. S?o historicamente importantes na mesma propor??o, e me incomoda n?o ter espa?o para citar todas.

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Qual era o seu objetivo ao criar o Afrofuturismo no WOW?

Zaika dos Santos: A inten??o foi construir acervos e uma divulga??o científica híbrida sobre afrofuturismo, pautada por mulheres, na qual mulheres negras líderes de organiza??es, artistas, cientistas, escritoras e produtoras — entre elas Sueli Carneiro e Paulina Chziane — pautam o futuro. Consegui realizar esse projeto por intermédio do programa "Mulheres na Ciência" de British Council, BBC de Londres e Museu do Amanh?, no Festival Mulheres do Mundo.

Em seus estudos, além do Afrofuturismo, você aponta o African futurism e o Afropresentismo. O que cada um representa?

Zaika dos Santos: Sobre os conceitos African futurism e Afropresentismo também é importante afirmar que todos foram cunhados por mulheres negras, que constantemente enfrentam as invisibilidades acerca da autoria, visto a amplitude desses conceitos.

O Afropresentismo foi idealizado por Neema Githere, teórica e curadora indígena africana, com pós-gradua??o na Universidade de Yale, que se baseia na diáspora digital. Por meio de análises imersivas, vivências digitais e n?o digitais e do armazenamento de memória, com a cura de dados em Data Healing e a utiliza??o das ferramentas disponíveis no agora, ela elabora a demarca??o do presente como um espelhamento para o futuro, tendo um forte diálogo com o panafricanismo.

Já o African futurism foi cunhado na literatura por Nnedi Okorafor, que é escritora estadunidense de ascendência nigeriana. Ela escreve sobre fic??o especulativa, fic??o-científica e fantasia, e com seu livro "Binti" já venceu prêmios como o Hugo e o Nebula. é uma das autoras do universo "Pantera Negra", na Marvel, onde escreveu os seis volumes "Vida Longa ao Rei", "Wakanda Forever" e "Shuri". Okorafor conceitua o African futurism como a contra-narrativa do afrofuturismo, de encontro com a retomada com o pioneirismo africano, o que de fato já era pautado no próprio continente Africano.

O protagonismo das pessoas negras por meio do Afrofuturismo já gerou avan?os na igualdade social?

Zaika dos Santos: Transformar a realidade é inicialmente entender o que de fato é a realidade acerca das desigualdades sociais. A aplica??o de um conceito ou de um movimento na realidade pode de fato muda-lá por intermédio da educa??o, e é neste lugar prático que o Afrofuturismo segue se desenvolvendo como prática de transforma??o, quando entendemos que Arte, Ciência e Tecnologia s?o campos do conhecimento e suas rela??es s?o atreladas à educa??o.

Outro fator importante é recuperar a consciência cognitiva e a memória geracional, por exemplo: a popula??o afrodescendente do agora é o futuro de gera??es de afrodescendentes que as antecedem. Isso significa dizer que as transforma??es na realidade do nosso presente de fato foram construidas pelas gera??es de 1970, 1980 e 1990 dos movimentos negros, bem como as suas regulamenta??es em leis mundiais e federais.

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Como você se sente em poder construir esse legado de recupera??o histórica no Brasil?

Zaika dos Santos: Eu me sinto viva, compreendendo os lugares múltiplos a que perten?o, lidando com as diversidades africanas e afrodescendentes e demarcando a História na pós-modernidade. Afinal, o apagamento de legados está aí e temos que continuar recuperando e registrando memórias. O registro do agora é necessário para desmantelar o epistemicídio histórico no passado, no presente e no futuro.

Quais s?o os seus projetos futuros dentro dos movimentos?

Zaika dos Santos: Vou continuar construindo o futuro no presente e recuperando memórias do passado. Enquanto trabalho e prático, vou dar o ponto de partida do ”Black Speculative Arts Movement" no Brasil para conectar artistas, pesquisadores e cientistas do Afrofuturismo no país na pauta mundial sobre o conceito. Também vou lan?ar algumas publica??es importantes para os conceitos e seguir dando foco nos meus projetos de multi-artes, ciência e tecnologia.

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