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Gloye desponta na street art e assina mural na Rua Alice: 'Grafite é uma arte sem limites'

Aos 37 anos, artista foi contratado por grupo de moradores de Laranjeiras para intervir em um muro do local
Grafiteiro Gloye faz trabalho no Rio de Janeiro Foto: O Globo
Grafiteiro Gloye faz trabalho no Rio de Janeiro Foto: O Globo

RIO — Descobrir quem é o Gloye requer paciência. Ele se revela aos poucos, por trás das camadas de tinta e humildade. é preciso ganhar sua confian?a para romper o mistério que cerca a crew do piche e a fama de fora da lei. Gloye come?ou aos 11 anos, assinando o G do nome de guerra em muros e paredes do Rio, de preferência à noite.

— O início é só por hype, para se colocar ali no tabuleiro, adquirir respeito da galera que surfa a mesma onda. Eu rabiscava até dentro do túnel, crian?a faz rapidinho e sai correndo — diz.

Vídeo registra o making of do mural do artista Gloye em Laranjeiras
Vídeo registra o making of do mural do artista Gloye em Laranjeiras

 

Gloye tem dificuldade em emergir das sombras como artista e mostrar a cara. Mas é isso que ele é hoje, aos 37 anos. Artista. E n?o gosta de aparecer.

 — Quero pintar. Na verdade, só quero isso. Pintar eu como com farofa, n?o tem dia nem hora. Com tinta, pincel, balde, spray, aerossol, rolo. Já pichei, fiz meu grafite daquele jeito à la vonté. Amadureci.

Gloye saiu do que chama de “backstage” ou “underground” e assinou agora, pela primeira vez, um mural, na Rua Alice, em Laranjeiras. Foi contratado pelo coletivo AmarAlice, grupo de moradores interessados em criar ali uma Rua Parque, um corredor verde com interven??es artísticas.

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Ele usou 18 litros de tinta plástica, 36 litros de tinta piso, 60 tubos de spray, pigmentos e corantes para revestir o muro de cimento cru que perdeu a hera numa batida de caminh?o. é uma das curvas radicais da Alice, essa rua no entorno da Floresta da Tijuca povoada por tucanos, outros bichos — e ciclistas que fazem trilha até o Cristo.

Ele nasceu Paulo Seixas, no Méier, foi criado em Copacabana pela m?e e hoje mora no Catete com a mulher e o filho de 4 anos, Aaron. Casaram na igrejinha do Palácio Guanabara. O colar é um ter?o, a cruz está oculta pela camisa. é católico, tem Bíblia, reza, mas n?o vai à missa.

— Acredito no papai do céu, sei que existe bondade e maldade. E agrade?o.

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Magro e musculoso, com tatuagens de tigre, alfabetos, drag?o e flores, ele chega de regata, sandália e bermuda respingadas de tinta e com um bordado.

— é a logo do Gloye — diz, na terceira pessoa.

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Pinta painel mas também pinta fachada. Largou os estudos de Direito para viver de criar. Nunca fez curso de Desenho. é autodidata. A rua e os amigos foram mentores.

— Há uma cena-RJ, n?o é ainda como Nova York ou S?o Paulo, estou integrado, sou um escritor da cena. E é sempre um coletivo.

A cena ao ar livre inclui skate, rap, parkour. A liberdade é o oxigênio do grafite.

— Grafite é uma arte sem limites. Dá desenvoltura, autoestima. Cada muro é um muro. Se n?o está na altura do tórax, é preciso subir até em andaime.

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Cada muro tem uma história hospedada. Uns s?o abandonados e poluídos, outros exibem trabalhos de artistas. Existe uma ética nesse teatro. N?o dá para chegar chutando o balde e encobrindo outros desenhos. Há guerra de egos. Mas também parceria.

Com 300 grafiteiros, Gloye pintou quil?metros de muros nas esta??es de metr?, no evento Copa Grafitti, curadoria de Airá Ocrespo.

— Ele manda bem pra caramba, um super articulador.

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Outra de suas referências é o Acme, da comunidade Pav?o Pav?ozinho, “sujeito homem íntegro”. Gloye tira o chapéu para “a velha guarda”, quando a tinta nem qualidade tinha: “Parecia um refresco, um ‘Ki-Suco do china’, escorria, n?o grudava”.

O que chama de “esteira”, sua estrada, o levou a muitos lugares. Em vez de ir à praia em Copacabana, se mandava para S?o Gon?alo.

— Vestia camisa de escola pública e subia no 555. Tinha ali uma linha de trem desativada. E um pioneiro do grafite carioca, Fabio Ema. Tinta de spray, ruas sem asfalto e altas pinturas. Caraca, pensava, como isso n?o está na Zona Sul? Nas comunidades, os grafites s?o benfeitorias, levam astral.

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Anos depois, foi à Art Basel Miami, em Winwood.

— Ali é como se fosse o carnaval do grafite. Um distrito só para borbulhar o tema. Grafiteiros do mundo inteiro.

Gloye já deu oficina para crian?as nos morros da Providência e do Pinto. E em reformatórios na Ilha do Governador e em S?o Gon?alo.

— Tem a parte técnica, do lápis, do papel. Precisa estar focado. N?o pode ficar pensando na pipa e estar ali na aula.

Ele lembra como a pintura rupestre já deixava sua marca nas cavernas, e n?o se acha apto a dizer o que é arte ou vandalismo.

— Deixo a defini??o para o galerista, o curador, o espectador, o pedestre. Hoje vejo telas de pichadores em galerias.

O piche de rua, repete como um mantra, é “cardíaco”. Como um gráfico no hospital.

— O colorjet faz palpitar o cora??o.

Cada um da galera do aerossol tem seu pulsar, n?o sente medo nem frio. Sente adrenalina.

Conheci Gloye primeiro na tela do computador. Em uma videoarte que mostra sua obra em evolu??o. Dá vertigem. Gloye sobe e desce uma escada pesada da Light de mais de sete metros. Usa máscara para n?o inalar a tinta. Na cabe?a, algumas obsess?es.

— Revitalizar. Amar. Canalizar essa energia para ficar saudável, porque hoje está fácil se desequilibrar. Tem muita coisa bonita pra acontecer na cidade do Rio. A gente tem muita parede, muito assunto.

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