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Episódios de racismo como o que sofreu Jo?o, no 'BBB21', refor?am que a resistência é crespa

O meu cabelo n?o é uma quest?o, mas como diz minha amiga Mary do Espírito Santo: o cabelo da pessoa preta é uma quest?o até quando ele n?o é uma quest?o

N?o me lembro de já ter falado sobre o meu cabelo aqui. Esperam que os negros tenham sempre uma história de empoderamento ou supera??o com o próprio cabelo e que escrevam sobre isso. O meu cabelo n?o é uma quest?o, mas como diz minha amiga Mary do Espírito Santo: o cabelo da pessoa preta é uma quest?o até quando ele n?o é uma quest?o.

Come?o a escrever esta coluna enquanto tenho o cabelo tran?ado pela Marlene, eu a vejo e me vejo no espelho. é claro, também mexeu muito comigo que o participante do “BBB” 21, Jo?o Luiz, tenha tido o seu cabelo comparado ao dos homens das cavernas esses dias por outro participante. O que mexeu comigo n?o foi a compara??o, foi a rea??o de Jo?o, que na hora n?o conseguiu dizer nada.

Eu conhe?o essa sensa??o, de seguir a vida, repetir pra si mesmo que aquilo n?o te atinge mais, que você é muito superior ao racismo e ao racista. Mas o inc?modo fica lá e o nó vai aumentando até o momento em que você grita, escreve, chora no chuveiro ou abra?ado a um amigo.

No capítulo “A Política do Cabelo” de “Memórias da Planta??o”, a autora Grada Kilomba descreve que o cabelo dos negros é menos tolerado que a cor da pele, até porque, é algo que pode ser “melhorado”. Por isso, “o cabelo se tornou o instrumento mais importante na consciência política entre os/as africanos/as e na diáspora africana. Rastas, afros e penteados africanos transmitem uma mensagem política de emancipa??o racial e de protesto contra a opress?o racial.”

Em quase quatro anos de Luanda, esta é apenas a quinta vez que tran?o o cabelo. Aqui s?o tantas as op??es que eu fico confusa, demoro a decidir e acabo decidindo por nada, uma espécie de catálogo da Netflix. Até que encontrei a Marlene.

Minha memória mais antiga do uso de produtos para “melhorar” o cabelo sou eu aos 4 anos e minha m?e usando em mim algo que tinha o cheiro muito ruim. O mais comum era usar os produtos em casa, minha irm?, minha m?e e eu, mas o processo e os produtos foram ficando cada vez mais agressivos, dolorosos. Eu podia ficar duas semanas até curar as feridas na cabe?a, “mas pra ficar bonita tem que sofrer!”

Aos 21 anos, o processo estava t?o torturante que eu comecei a fugir. A “validade” do uso da química passou e eu decidi adiar por um mês, dois, três… E assim o meu cabelo come?ou a crescer, o meu de verdade, o meu que eu nunca havia visto, e afinal era bonito! Decidi que n?o iria mais ter na cabe?a um cabelo que n?o fosse meu. A coisa mais dura que eu ouvi foi que meu cabelo n?o ia crescer, que eu ia ficar careca porque meu cabelo n?o tinha for?a sozinho, que ele só crescia por causa da química. Hoje toda vez que me olho no espelho eu tenho vontade de ligar pra pessoa e rir. Na época n?o havia youtubers, n?o havia produtos, era eu e meu óleo de coco contra o mundo.

Neste processo, um dia eu decidi ir num sal?o chique e a cabeleireira me olhou como se n?o soubesse o que fazer, ficou uns 10 minutos procurando na gaveta de pentes um que desembara?asse o meu cabelo, e n?o havia. Foi uma das piores experiências da minha vida e eu ainda por cima paguei caro por ela. Na época, como o Jo?o, eu n?o soube o que dizer.

Depois encontrei Andreia, porque tudo o que a gente está procurando, também está à nossa procura. Ela era uma mulher negra, tinha um sal?ozinho no Méier e foi a primeira pessoa que tocou na minha cabe?a sabendo o que deveria fazer. A aten??o permanece, porque o capitalismo é feroz e a mesma marca de cremes que produzia os produtos que queimavam minha cabe?a, hoje tem discurso de empoderamento.

Todos esses “episódios de racismo cotidiano” n?o nos definem, mas só refor?am que a resistência é crespa.

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