Exclusivo para Assinantes

Queria dizer algo que signifique mais do que apenas sobreviver

Eu queria ter nas m?os histórias delicadas e romanticas, de final feliz

Ele me liga do fixo, por voz. Você tá com tempo pra me ouvir?, pergunta. Na pandemia, esse é o máximo de intimidade a que podemos chegar. Conta dos últimos meses, do último ano. Fala da situa??o que piora a cada dia, da preocupa??o ao ler estas páginas de manh?, do medo de assistir ao Jornal Nacional. Ele diz que de tanta notícia ruim, às vezes n?o sente vontade nem de levantar da cama. Melhor seria dormir até tudo passar, sonha. Nos fins de semana com as minhas filhas melhora, revela, quase animado. Elas trazem alegria, mas os 15 dias seguintes demoram uma eternidade. é como se estivesse sozinho num submarino, vagando por um oceano sem fim. Essa história de home office piorou ainda mais o isolamento, os colegas n?o est?o realmente ali, é só uma tela que fala. Tem dia que chega ao fim e eu n?o saí de casa, n?o dei um bom dia, um sorriso. Cara, como faz falta trocar sorrisos, a gente nunca imaginou que eles iam acabar. Tenho me sentido muito solitário, confessa. No fim do ano passado tive alguns encontros, meio na carência, meio na vontade, mas depois, quando as UTIs lotaram, desisti. Tenho amigos que antes de sair com alguém pedem exames, PCR, ficam batendo datas, janelas de transmiss?o e infec??o, mas aí o que era para ser um encontro vira um check-up médico. Depois tem que lidar com a culpa de estar fazendo algo errado, ser o responsável pela morte de alguém. Só quero atravessar esse nevoeiro e chegar vivo no fim da pandemia. Posso te dizer uma coisa? A vida precisa ser mais que apenas sobreviver.

"Resta torcer para que as naves que voam pelo espa?o sideral encontrem os submarinos que vagam por um oceano sem fim" Foto: Leo Aversa / O GLOBO
"Resta torcer para que as naves que voam pelo espa?o sideral encontrem os submarinos que vagam por um oceano sem fim" Foto: Leo Aversa / O GLOBO

Na rua vazia ela fica de longe, numa distancia segura. Como você tá aguentando?, me pergunta. Antes da resposta já come?a a falar. Ela precisa falar. Falar da separa??o no come?o da pandemia, dos longos dias que nunca chegam ao fim, do emprego que foi embora no meio. Ela conta a dificuldade que é cuidar de uma crian?a sozinha nestes tempos de incertezas, doen?as e mortes. Reclama do ex ausente, que nunca tem tempo para o menino. Fala do medo de pegar Covid. Quem vai cuidar do meu filho? Da angústia de ser internada numa UTI, do terror de ir embora sem se despedir. O confinamento é um pantano, a gente vai afundando. Fala da falta que faz um encontro, n?o só para dividir a cama, mas para segurar a m?o, sentir a pele, abra?ar e ter ao menos uma noite de asilo no corpo de alguém, longe dessa tragédia. Uma paix?o de algumas horas ou um amor inventado me fariam feliz, confessa. Só ou?o notícias ruins, de um lado as mortes que aumentam sem parar, do outro a miséria chegando como um tsunami. A melancolia é tanta, diz, que parece que estou sozinha numa nave, voando sem rumo pelo espa?o sideral. No fim me pede desculpas pelo desabafo e pergunta: será que vou sobreviver?

Eu queria ter nas m?os histórias delicadas e romanticas, de final feliz, para escrever uma coluna que alivie por instantes o mal-estar do tempo que parou. Queria dizer algo que, no meio da pandemia, signifique mais do que apenas sobreviver, mas talvez seja querer demais. Me resta torcer para que, por alguma mágica, dessas que valem uma vida, as naves sem rumo que voam pelo espa?o sideral encontrem, em algum momento, em algum lugar, os submarinos que vagam por um oceano sem fim.

草蜢社区在线观看-草蜢影院在线影院