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Heróis por acaso: de Bernie LaPlante a Gabigol, a minúscula cidadania boleira

ídolos superpopulares – em especial do futebol – patinam na vida real da sociedade, numa silenciosa conjuga??o de aliena??o e vaidade; leia a estreia da série #nuncaésóesporte"
Nunca é só esporte Foto: Editoria de Arte
Nunca é só esporte Foto: Editoria de Arte

Quanto mais alto, no olimpo do esporte profissional, mais rarefeita é a no??o de cidadania de seus protagonistas. Os ídolos superpopulares – em especial do futebol – patinam constrangedoramente na vida real da sociedade, numa silenciosa conjuga??o de aliena??o e vaidade. Salvo exce??es, que em verdade servem para avaliza a regra, jogadores e técnicos passam ao largo dos engajamentos reclamados pelo cotidiano. No campo, marcam gola?os, materializam títulos, erguem ta?as – mas s?o, como Bernie LaPlante, heróis por acaso.

Quem?

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Filme do americano Stephen Frears lan?ado em 1992 (e visto por muito menos gente do que merecia), “Herói por acidente” narra as desventuras do personagem brilhantemente interpretado por Dustin Hoffman. Um homenzinho desprezível, mesquinho, egoísta, que atravessa a vida em permanente flerte com a ausência de ética – para ser gentil –, mas é capaz de atos heroicos totalmente improváveis. Como salvar pessoas num avi?o em chamas, por exemplo.

Gabigol foi flagrado em cassino clandestino durante opera??o da polícia Foto: AMANDA PEROBELLI / REUTERS
Gabigol foi flagrado em cassino clandestino durante opera??o da polícia Foto: AMANDA PEROBELLI / REUTERS

Os extremos propostos pelo roteiro funcionam à perfei??o como molduras para discuss?es sobre imagem eestereótipos, cren?as e julgamentos, convic??es e senten?as. Ninguém é herói nem vil?o o tempo inteiro – e os incontáveis paradoxos humanos est?o aí a nos provar isso dia sim, outro também.

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Mas, para chegar no Brasil, há uma sociedade com urgências variadas a serem debeladas, com a imprescindível contribui??o de todos – e bem aqui os ídolos do futebol est?o devendo. Doutrinados desde muito cedo a se esconder no silêncio dos chav?es boleiros, aceitam o destino de máquinas do jogo, sem opini?es nem atitudes fora de campo. (No bojo, sofrem com a desumaniza??o que n?o lhes permite fragilidades, e nem contra isso se rebelam).

O futebol mergulha no terraplanismo de negar a ciência e, mesmo com o coronavírus dando de 7 a 1 no Brasil, insiste em manter jogos seguidos, no massacre de um vale-tudo travestido de calendário. Os times atravessam surtos de covid-19, mas se escondem atrás de casos leves, consequência da prepara??o dos atletas. A irracionalidade produz aglomera??es de torcedores, viagens de delega??es pelo país em crise sanitária – e o que nossos craques têm a dizer?

Cri, cri, cri...

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Na trágica saga da pandemia, alguns clubes realizaram a??es sociais, como distribui??o de cestas básicas. Uns poucos jogadores (Alisson, goleiro do Liverpool e da sele??o; Bruno Henrique, atacante do Flamengo; Fernando Prass, veterano goleiro do Ceará) usaram as redes sociais para ensinar a necessidade da higiene com as m?os e o uso de máscara.

(Gloriosa exce??o é o jovem Richarlisson, do Everton e da sele??o, sempre vigilante na assistência a quem precisa. Ele sempre ajuda vítimas de enchentes no seu estado, o Espírito Santo, e também bancou milhares de cestas básicas nos últimos meses).

Se o tema dramático, que afeta os boleiros diretamente, recebe silêncio como resposta, imaginem todo o resto. Há registros bissextos de protestos contundentes contra o racismo, a miséria, o machismo, a homofobia, a desigualdade social, a defesa do meio ambiente. A rapidez dos dribles e a precis?o de chutes e lan?amentos ficam por aí mesmo, no campo. Quando a Amaz?nia ardia em chamas, ano passado, o francês Mbappé se insurgiu nas redes sociais antes do brasileiro Neymar.

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E olha que o camisa 10 da sele??o merece elogios pela atitude, porque, noves fora a lentid?o, foi ruidosa minoria no silêncio geral. Assim como bateu um bol?o ao deixar o campo por causa da fala racista de um árbitro, em partida da ChampionsLeague, em dezembro. Bem-vinda mudan?a de postura para alguém que, aos 29 anos, se definia como “um menino” até outro dia. Pena que, no fim daquele mesmo mês, Neymar se permitiu uma ruidosa festa de réveillon, contrariando todas as recomenda??es da ciência. A repercuss?o planetária do vexame o fez recuar – mas era tarde.

Ah, mas os jogadores têm obriga??o de algo além do que s?o pagos para fazer? Sim, têm – como todo mundo. A pandemia e a crise climática s?o exemplos de que inexistem solu??es individuais. O mundo melhor, mais justo, virá do trabalho mais coletivo possível. A contribui??o de gente famosa, associada ao sucesso individual, capaz de cativar a aten??o de multid?es, é indispensável, por poderosa.

A vitória no esporte de alto rendimento lava tudo. Campe?es s?o inevitavelmente amados e invejados, ninguém fica indiferente a eles. Poucos setores ostentam tanta credibilidade – mas, para citar outro personagem da fic??o, com grandes poderes vêm grandes responsabilidades (copyright Ben Parker, o tio do Homem-Aranha). Heróis n?o podem se esquecer disso.

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E quanto mais alta a montanha da popularidade, maior o tombo. Na madrugada do domingo 14 de mar?o, o paulista Gabriel Barbosa, cultuado no país inteiro como Gabigol, camisa 9 do Flamengo, foi apanhado em flagrante delito, num cassino clandestino em bairro de endinheirados em S?o Paulo. Além da contraven??o, o artilheiro ainda se permitiu aglomerar com outros 150 irresponsáveis e, segundo a polícia, ainda tentou se esconder embaixo da mesa (o jogador nega).

Melhor centroavante brasileiro em atividade (aí incluídos os exilados na Europa), Gabigol é hoje mais popular do que Neymar. Seu jogo brilhante, sua intensidade em campo e as comemora??es ic?nicas enfeiti?am torcedores de todos os times. A for?a de sua marca poderia mexer com estruturas variadas – mas cadê?

No dia seguinte ao flagra, Gabigol apareceu no “Fantástico” e, em estudado arrependimento, alegou ao repórter Eric Faria que “faltou sensibilidade”. “Pe?o desculpas porque eu errei sim (...) e sou muito novo, sei que vou acertar e errar”, acrescentou. (Dia 30 de agosto próximo, Gabigol fará 25 anos.)

Está longe de ser problema de gera??o. O também centroavante Fred, 37 anos, dos grandes ídolos da história do Fluminense, saiu pelas ruas do Rio, numa noite chuvosa, gravando vídeos fingindo ser um pedinte, pela divers?o de surpreender os motoristas. Pelo menos, n?o produziu aglomera??es.

Ao se tornarem profissionais ainda crian?as – n?o se enganem: o rigor come?a antes da adolescência –, os jogadores de futebol tornam-se adultos infantis. Quando n?o est?o trabalhando, costumam jogar videogame e o máximo de seriedade a que se permitem é a vida religiosa.

Uma forma??o educacional mais sólida ajudaria no ganho de consciência – mas o Brasil joga na dire??o contrária. Basta o menino apresentar sinais de que “vai dar jogador” (como prega o dialeto do mercado) para a escola virar detalhe, do tipo “se der, deu”. Difícil brotar aqui um Lebron James, com a autoridade cidad? para se posicionar até numa campanha eleitoral, como o craque da NBA fez contra o republicano Donald Trump, ano passado.

Por aqui, os heróis seguem todos acidentais.

PS: “Herói por acidente” está na rede. Vale a pena o (pequeno) investimento.

* Aydano André Motta é jornalista. A série #nuncaésóesporte será publicada quinzenalmente, às segundas-feiras.

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