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Análise: Pris?o de Navalny joga oposi??o russa em campo incerto, mas leva algum risco a Vladimir Putin

Opositor usou carisma, repress?o e crise socioecon?mica para turbinar protestos contra o governo, e precisará reavaliar estratégia diante de sua ausência da vida pública
Alexey Navalny, opositor russo, durante julgamento que decidiu sobre sua pris?o por 2 anos e 8 meses em regime fechado Foto: HANDOUT / AFP
Alexey Navalny, opositor russo, durante julgamento que decidiu sobre sua pris?o por 2 anos e 8 meses em regime fechado Foto: HANDOUT / AFP

Minutos antes de Alexei Navalny ser conduzido à sala onde ouviria a juíza Natalya Repnikova declarar que passará os próximos dois anos e oito meses em uma col?nia penal, veículos de imprensa estatais ou ligados ao Kremlin já estampavam a senten?a em suas páginas e tarjas de telejornais. Seja por ato falho ou informa??o de bastidores, as frases refletiam a posi??o do Kremlin sobre aquele que é apontado como um algoz cada vez mais inc?modo para Vladimir Putin. Ao mesmo tempo, a senten?a ajuda a criar um clima de incerteza sobre o papel da oposi??o nos próximos anos, e que pode respingar no próprio presidente.

O processo contra Navalny data de 2012, relacionado a alega??es de fraude em uma negocia??o com uma subsidiária de ume empresa francesa de cosméticos. Ele foi condenado em 2014, mas sua senten?a foi suspensa, e ele deveria se apresentar regularmente às autoridades. Caso contrário, precisaria cumprir a pena original.

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Depois de seu envenenamento, em agosto de 2020, e seu tratamento na Alemanha, promotores consideraram que ele violou esses termos, e deveria ser preso ao regressar à Rússia, o que ocorreu em janeiro. E a arbitrariedade com a qual foi tratado pelas autoridades, mesmo antes de seu julgamento, serviu para amplificar as vozes contra sua deten??o.

Nacionalista e 'outsider'

Navalny n?o é exatamente um líder popular. Segundo pesquisa do Instituto Levada em novembro, apenas 4% o consideram o político mais confiável do país e apenas 2% o apontam como a primeira op??o em uma elei??o presidencial. Contudo, o mesmo instituto constatou que houve uma relativa melhora em sua imagem depois do envenenamento: em setembro. Semanas depois do ataque, 20% dos russos disseram aprovar suas a??es políticas — há um potencial eleitorado “escondido”, que em tese poderia votar nele e em seus candidatos.

Além disso, Navalny difere de outros nomes tradicionalmente associados a uma oposi??o institucional a Putin, como o era Boris Nemtsov, ligado às reformas liberais na Rússia nos anos 1990 e ao governo de Boris Yeltsin. Ele foi assassinado em 2015, e o mandante do crime jamais foi revelado.

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Navalny, por sua vez, n?o é ligado a cl?s políticos. Sua plataforma é centrada no combate à corrup??o e um certo grau de nacionalismo, se aproveitando de estratégias digitais, como o uso de aplicativos de mensagens e vídeos com denúncias de corrup??o contra altas autoridades.

Em 2017, a divulga??o de um vídeo com denúncias contribuiu para a deteriora??o da imagem pública do ent?o premier Dmitry Medvedev — “Ele n?o é Dimon para você” foi visto milh?es de vezes, e é apontado como um dos pilares para sua saída do cargo, em 2020.

Já no final de janeiro, logo depois da sua pris?o, veio aquele que é considerado seu grande filme-denúncia: “Um palácio para Putin”, no qual detalhava um suposto esquema de corrup??o que permitiu luxos a amigos e parentes do presidente, culminando em um palácio à beira do Mar Negro, com valor estimado de US$ 1,3 bilh?o.

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O filme, aliado a um contexto de crise econ?mica e social com raízes anteriores à pandemia, e à indigna??o diante do tratamento conferido a Navalny, ajudaram a turbinar os protestos dos últimos dois finais de semana. Dessa vez, o público trazia também pessoas que n?o necessariamente compartilham seus pontos de vista, mas n?o confiam mais nos rumos do país sob Vladimir Putin. A resposta oficial veio de uma maneira: repress?o. Foram mais de nove mil pessoas detidas e agredidas, incluindo nos atos de ter?a-feira, depois do anúncio da pris?o.

Terreno desconhecido

A pris?o e a repercuss?o do caso Navalny também chegaram ao Kremlin. Putin normalmente n?o menciona seu adversário pelo nome, mas quebrou essa regra ao se defender das acusa??es de corrup??o. Seu secretário de Imprensa, Dmitry Peskov, apoiou a repress?o nas ruas, dizendo que n?o há diálogo com “arruaceiros”.

Para o professor de História da USP e autor do livro "Os Russos", Angelo Segrillo, o vídeo e os protestos conseguiram tirar Putin da zona de conforto, o que n?o significa que seu governo tenha sido abalado. Ao menos por enquanto.

— Vai ser interessante observar qual vai ser o impacto da condena??o. Se isso vai levantar mais simpatia à causa de Navalny. Isso além da quest?o do envenenamento e de ter tido a coragem de voltar para a Rússia — afirmou Segrillo.

Ele considera que o campo político de Navalny entrou agora em um terreno desconhecido. Afinal, ser?o quase três anos longe da vida pública, impedido de participar e organizar protestos. Sem aliados carismáticos e sob forte press?o política, será necessário construir mecanismos para manter o engajamento mesmo sem uma lideran?a à vista.

— Uma coisa é ele ir aos grandes protestos. Outra é ele estar na pris?o. Isso dificulta tudo, uma vez que o movimento está personalizado nele — declara Segrillo, mas apontando que a incerteza n?o está apenas com Navalny e a oposi??o. — Vai ser um jogo de gato e rato para Putin. Mantendo Navalny na pris?o ele vira um mártir, e aumenta a press?o externa sobre a Rússia. Se ele sair da cadeia, você cria um líder opositor ainda mais forte

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