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‘Nunca existiu movimento t?o poderoso’ por justi?a nos EUA como agora, diz filho de Martin Luther King Jr.

Em entrevista ao GLOBO, Martin Luther King III declara que país vive hoje o que seu pai chamava de ‘coaliz?o de consciência’: ‘As pessoas est?o juntas e dizendo basta’
Martin Luther King III, filho de Martin Luther King Jr., durante comício na Geórgia em dezembro de 2020 Foto: AUDRA MELTON / NYT
Martin Luther King III, filho de Martin Luther King Jr., durante comício na Geórgia em dezembro de 2020 Foto: AUDRA MELTON / NYT

No dia 4 de abril de 1968, o pastor Martin Luther King Jr., líder do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, foi assassinado a tiros em Memphis, Tennessee. Cinquenta e três anos depois — e no ano seguinte aos maiores protestos contra o racismo em seu país desde a época do seu pai —, o filho mais velho de King, Martin Luther King III, afirma que “nunca existiu um movimento t?o poderoso” por justi?a quanto o que há agora.

— Estamos em uma encarna??o moderna do que meu pai chamava de “coaliz?o de consciência”. As pessoas est?o se unindo e dizendo basta — disse King III em entrevista ao GLOBO, por e-mail.

Isso n?o significa que n?o haja riscos para o legado de Luther King, cujo movimento impulsionou a aprova??o, em 1964 e 1965, da Lei dos Direitos Civis, que p?s fim à segrega??o racial no Sul dos EUA, e da Lei do Direito de Voto, que visava impedir que os negros e outras minorias tivessem tolhido seu direito de eleger seus representantes.

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Hoje, em estados como a Geórgia, Assembleias de maioria republicana est?o aprovando leis com o objetivo de reduzir a participa??o eleitoral, em especial de grupos que, em 2020, ajudaram a eleger Joe Biden. Para se opor a esse movimento, tramitam no Congresso dois projetos que visam garantir o exercício do voto, com a uniformiza??o de regras em nível nacional. N?o há, porém, garantias de que ser?o aprovados no Senado, onde há empate entre as bancadas republicana e democrata.

— Precisamos acabar com esta nova era do Jim Crow — afirmou King III, em uma referência às leis do período segregacionista.

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Na entrevista, o atual diretor do Instituto Drum Major, um centro de difus?o do legado de Luther King, fala também do caso de George Floyd, o seguran?a negro asfixiado por policiais em Minneapolis, no estado de Minnesota, em maio de 2020. Foram as imagens da violência contra Floyd que desencadearam as manifesta??es maci?as contra a desigualdade racial e a violência policial. Antes do seguran?a, em mar?o, a morte a tiros da emergencista negra Breonna Taylor, atingida por policiais que invadiram sua casa em Louisville, Kentucky, já havia provocado protestos.

 

Cinquenta e três anos depois da morte de seu pai, como o legado dele ainda ecoa nos EUA hoje?

Meu pai organizou manifesta??es n?o violentas e falou em favor da necessidade de erradicar o racismo, a pobreza e a violência nos Estados Unidos. Ele convocou os americanos para se juntarem a ele enquanto organizava, marchava e pressionava lideran?as do governo para agirem. Hoje, nós vemos esse legado vivo, bem como americanos de todas as ra?as se unindo para resolverem essas quest?es. No ano passado, marchas pacíficas ocorreram por todo o país, clamando pelo fim da violência policial. Essas manifesta??es provam que o legado do meu pai está vivo e bem, além de provar que os americanos ainda est?o trabalhando para realizar seu sonho.

Seu pai esteve envolvido na aprova??o da Lei de Direito de Voto. Como as batalhas atuais, tanto no Congresso quanto em estados como a Geórgia, v?o evoluir?

Os EUA têm uma conturbada história de supress?o do voto e, agora, estamos vendo Assembleias republicanas por todo o país atuando para tornar o voto mais difícil para minorias. Os EUA precisam acabar com esta nova era de Jim Crow com a aprova??o da Lei do Direito de Voto John Lewis [o nome da lei homenageia o ativista e congressista que morreu em 2020] e da Lei para o Povo. Ambas v?o tornar mais fácil que americanos votem e v?o assegurar que os estados n?o adotem práticas discriminatórias.

O governo Biden está à altura da expectativa de tantos afro-americanos que votaram nele?

Biden ganhou as elei??es por conta da alta vota??o entre os afro-americanos e, particularmente, entre mulheres negras. é nosso trabalho cobrar o governo Biden e pressioná-lo a erradicar o racismo, a pobreza e a violência. Eles deram um grande primeiro passo com um Gabinete diverso e por meio de medidas incluídas no Plano de Resgate Americano para prestar assistência às comunidades negras, mas ainda há muito, muito mais trabalho a ser feito.

Sobre o caso de George Floyd, a indeniza??o de US$ 27 milh?es acertada entre a família dele e a prefeitura de Minneapolis é o suficiente? Como espera ver a justi?a sendo feita?

Nos EUA, nós precisamos fazer mudan?as significativas no policiamento para garantir que n?o veremos, no futuro, tragédias como o assassinato de George Floyd. A polícia deveria vir das comunidades que atende, deveria ser treinada para distensionar as situa??es e, o mais importante, deveria ser responsabilizada pelos seus atos. Nós precisamos ver justi?a no assassinato de George Floyd e Derek Chauvin [o policial que está sendo julgado por asfixiá-lo] deve ser responsabilizado.

N?o apenas a comunidade negra, mas outros setores da sociedade americana levantaram voz para que a justi?a fosse feita, tanto no caso de Floyd quanto no de Breonna Taylor. Qu?o importante é ter uma coaliz?o ampla em favor da igualdade racial?

Os eventos do ano passado revelaram a desigualdade estrutural e o racismo descarado que ainda é evidente por todo o nosso país. Eu acho que muitas pessoas reconheceram, pela primeira vez, as quest?es profundamente enraizadas do racismo sistêmico. No ano passado, nós testemunhamos o maior e mais ativo, multigeracional e multirracial movimento por direitos civis e direitos humanos desde os anos 1960. Dos estudantes de ensino médio até os cidad?os mais idosos — negros e brancos, latinos, indígenas, asiáticos —, os americanos marcharam juntos, muitos pela primeira vez. E devemos continuar a exigir mudan?as estruturais verdadeiras e duradouras.

Há diferen?a entre as manifesta??es que vimos no ano passado e as dos anos 1960?

Com o crescimento das mídias sociais, nós estamos ainda mais conectados uns com os outros e com o que está acontecendo em nosso país. Está se tornando cada vez mais difícil para as pessoas ignorarem as injusti?as, já que elas s?o documentadas por nossos celulares e espalhadas por toda a parte.

Antes do início: Milhares protestam na véspera do julgamento de policial acusado pela morte de George Floyd

Eu acredito que nosso país nunca viu um movimento t?o poderoso quanto esse. Nós estamos em um encarna??o moderna do que meu pai chamava de “coaliz?o de consciência”. As pessoas est?o juntas e dizendo basta. Nós devemos continuar caminhando para frente com propósito e paix?o, e nós vamos completar o trabalho iniciado de forma t?o ousada nos anos 1960.

O senhor às vezes se sente cansado por ainda ser preciso erguer a voz contra problemas contra racismo, pobreza, desigualdade social?

Meu pai dizia: “O progresso humano n?o é nem automático nem inevitável… Cada passo em dire??o ao objetivo da justi?a requer sacrifício, sofrimento e luta; os esfor?os incansáveis e a preocupa??o apaixonada de indivíduos dedicados”. Sim, é fácil se sentir cansado e frustrado com o estado do nosso mundo. Minha inspira??o para continuar muitas vezes vem da minha filha, Yolanda. Ao mesmo tempo em que tenho certeza que meu pai estaria triste por ver que ainda estamos lutando por justi?a, eu sei que ele estaria muito orgulhoso de sua neta e dos milh?es de outros jovens que se levantam por um mundo melhor.

Existe uma tendência autoritária no mundo, como vimos nos EUA com Donald Trump e vemos, por exemplo, no Brasil de Bolsonaro. Isso muda alguma coisa na resistência n?o violenta que seu pai defendia?

Eu ainda acredito, de todo o cora??o, que a n?o violência é o melhor e único caminho para o que meu pai chamava de "comunidade do amor”, um mundo no qual racismo, pobreza e violência s?o substituídos por paz, justi?a e igualdade. N?o conseguimos alcan?ar este mundo, um lugar de paz consigo mesmo, por meio da violência.

O Brasil tem a maior popula??o negra fora da áfrica e foi o último país a abolir a escravid?o. O racismo ainda é disseminado pelo país. Teria sugest?es para abordar essa quest?o aqui?

Meu pai dizia que “injusti?a em qualquer lugar é uma amea?a à justi?a em todo lugar”, e eu acredito que nós devemos trabalhar para alcan?ar paz, justi?a e igualdade para todas as pessoas, n?o apenas aqui nos EUA. O racismo sistêmico afeta comunidades negras ao redor do mundo, incluindo negros americanos e brasileiros. Eu acredito que o ano passado nos EUA mostrou que organiza??o das comunidades pode fazer uma diferen?a monumental quando se trata do direito de voto e da responsabiliza??o de pessoas em posi??o de lideran?a.

Quais s?o as principais a??es que o Instituto Drum Major programou para este ano?

O Instituto Drum Major come?ou com meu pai, Martin Luther King Jr, em 1961. Hoje ele é coordenado por mim, minha mulher Andrea Waters King, e nossa filha, Yolanda Renee King. Nós estamos trabalhando para democratizar o legado do meu pai e continuar sua miss?o de acabar com os três males do racismo, da pobreza e da violência. Em agosto de 2020, nós lideramos o aniversário da Marcha a Washington com o reverendo Al Sharpton. Nossa filha Yolanda, que tem 12 anos e também é uma ativista iniciante, discursou na marcha. Eu estou muito inspirado por ela e por milh?es de jovens que est?o na linha de frente do movimento. O Instituto Drum Major pretende continuar a ajudar jovens ativistas por meio do ensino da filosofia de King. Nossas a??es para esse ano est?o focadas em assegurar que todos reconhe?am o próprio papel em dar continuidade ao legado do meu pai. Está ao alcance de cada um de nós dar continuidade ao trabalho que ele deixou incompleto e realizar o seu sonho.

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