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Profissionais da linha de frente do combate à Covid-19 recebem tratamentos de guerra para lidar com traumas

Técnicas como o EMDR e o Bodynamic, empregados normalmente no exterior em soldados egressos de conflitos armados, est?o tratando profissionais de saúde no Brasil
O médico Rafael Costa usa a Terapia EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) em atendimento on-line Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
O médico Rafael Costa usa a Terapia EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) em atendimento on-line Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

S?O PAULO - A roupa de prote??o necessária para o trabalho na pandemia se tornou uma fonte de agonia para Valdinei David, técnico de enfermagem e motorista do Samu e de uma empresa particular de ambulancia em Salvador. Em cerca de três horas dentro das pe?as, que envolvem o corpo todo, sinais fortes de inc?modo aparecem.

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— Aquilo dá uma ansiedade, você quer arrancar tudo. Nessas horas, o colega te acalma e você acalma o colega, porque n?o podemos tirar. Temos que respirar fundo e lembrar algo para dar risada — conta o socorrista de 42 anos, que está na área há 14.

A angústia estava menor, ele conta, no período em que teve acesso a sess?es on-line de terapia oferecidas voluntariamente. A tolerancia enquanto tinha “uma hora por semana para desabafar” alcan?ava oito horas dentro do aparato de prote??o. Ainda assim o desafio era grande — seus plant?es chegavam a emendar 36 horas.

Agora, sentindo falta do atendimento, ele busca voltar para as consultas com a técnica Bodynamic. Criada na Dinamarca há cerca de quatro décadas, ela já foi usada para tratar veteranos de guerra na Ucrania. O princípio aqui é combinar a terapia verbal com a prática de exercícios que ajudam no manejo do estresse e podem ser repetidos pelo paciente na hora em que ele mais precisar.

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O paralelo entre quem passou pelo front em um conflito e quem está na linha de frente do combate à pandemia se justifica pela quantidade de episódios traumáticos vividos em ambos os casos. E aparece inclusive nas próprias declara??es dos pacientes, destaca Andrea Miranda, terapeuta que idealizou o projeto que já atendeu mais de 200 profissionais de saúde no Brasil.

— A sensa??o que a gente tem é que é um contexto de guerra mesmo, eles n?o têm um lugar de repouso, porque no trabalho é só paciente morrendo e precisando de atendimento, sem vaga. Existe também o medo de voltar para casa levando a doen?a — diz ela, que mora no Rio, mas atende remotamente profissionais de diversas cidades e à distancia coordena um projeto de pesquisa baseado nesse trabalho junto à Universidade Estadual da Bahia (Uneb). — é uma falta de seguran?a em todos os aspectos. A única forma de encontrar seguran?a é dentro de si — constata.

Estímulos para memória

Outra técnica que já trata veteranos de guerra pelo mundo e tem sido empregada no Brasil durante a pandemia é o EMDR, sigla em inglês para “Eye Movement Desensitization and Reprocessing” (dessensibiliza??o e reprocessamento por meio de movimentos oculares). O processo usa estímulos visuais e táteis nas sess?es para fazer o paciente “soltar” as memórias dolorosas com facilidade.

é assim que o médico Rafael Costa, residente de neurologia no Hospital das Clínicas, tenta relatar em casa, por meio de videoconferência com sua terapeuta, os momentos difíceis que tem vivenciado. Formado no final de 2019 em Recife, ele chegou a S?o Paulo logo no come?o da pandemia. Nas primeiras semanas já pegou a doen?a e, quando se recuperou, foi parar diretamente nas enfermarias e UTIs de atendimento à Covid, quando passou a se sentir ansioso e a ter noites insones.

— O que mais me assustou, me chocou mesmo, foi ver pessoas que s?o referências na área médica entrando num estado de incerteza. Eu via profissionais super experientes trabalhando em meio ao caos sem saber o que fazer. Eu esperava uma orienta??o e ouvia muitas vezes ‘eu n?o sei’ — lembra ele, que tem 25 anos. —Também nunca tinha visto tanta gente precisando de oxigênio e n?o tendo, precisando de vaga de UTI e n?o tendo. Vi pessoas falecendo sem ter isso. Tenho algumas cenas gravadas na minha cabe?a — narra.

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A técnica EMDR, ele avalia, tem dado um novo sentido a essas histórias difíceis.

— A memória n?o vai deixar de existir, a quest?o é como você encara aquilo e como isso vai mexer com você. O fato n?o se altera, ele está inserido de forma profunda na sua memória. Mas dá para mudar a forma com que você lida com ele — diz Costa.

Maria (que n?o quis se identificar) também passou pela experiência de se ver recém-formada atuando na linha de frente. A médica de Recife, de 25 anos, trabalha há um ano em uma emergência atendendo pacientes com Covid. Os sinais de alerta para procurar ajuda, ela lembra, apareceram já nas primeiras semanas de trabalho durante a crise sanitária.

Um dos seus dilemas é o medo de tirar a máscara, que fez com que ela, no início, nem bebesse água ou se alimentasse durante os plant?es. Ela também luta contra uma sensa??o de entorpecimento que sente nas horas de maior ansiedade.

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— Eu tenho uma tendência a “sair de mim” se estou numa situa??o muito perturbadora assim. E n?o posso deixar isso acontecer no trabalho — conta ela, que come?ou a fazer sess?es online de Bodynamic em abril passado.

Agora os exercícios ensinados na terapia s?o repetidos por ela em casa ou no trabalho nos maiores momentos de estresse.

— O meu favorito é o de centramento. Você precisa pensar e tentar sentir o meio do seu corpo, uma regi?o atrás do umbigo. Você finca bem os pés no ch?o e respira sentindo aquela regi?o. Para isso você faz um balan?ar leve dos quadris, uma coisa muito discreta, que quem está perto de você nem vai perceber. Você faz esse movimento e vai ter a sensa??o dessa regi?o — descreve.

‘Cura’ para 78 pacientes

Para Ana Lúcia Castello, terapeuta de EMDR que coordena o projeto humanitário no país, os profissionais da saúde precisam tentar cuidar melhor de si. Por enquanto a equipe formada por ela para a iniciativa, com 164 terapeutas, deu alta para 78 pacientes, um número que deveria ser maior diante da tragédia vivida.

— O estresse pós-traumático normalmente é desenvolvido de 30 a 40 dias depois que a pessoa passa pelo evento traumático. Agora nós temos todo esse tempo de pandemia — explica. — Os profissionais de saúde ficam receosos de procurar ajuda. Isso preocupa muito porque aqueles que foram atendidos nos falam: “Nossa, achei que n?o ia ajudar em nada” — conclui.

Os interessados no projeto de EMDR devem escrever para o e-mail sosredesolidaria@emdr.org.br colocando “Preciso de ajuda” no título da mensagem. Para o projeto de Bodynamic as inscri??es s?o feitas neste formulário online.

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